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Blog EntryApr 28, '08 2:20 PM
for everyone
"O Sertão vai virar mar..." E o caiçara fica sem chão.

Em Setembro de 2005 estive com outros alunos de Biologia de São Paulo, Minas e Rio de Janeiro em uma vivência na foz do Rio São Francisco, divisa entre Sergipe e Alagoas. Conhecemos a vila de pescadores do Cabeço, que está em uma ilha no município de Brejo Grande, ainda no estado de Sergipe. Em 1995, viviam cerca de 120 famílias neste vilarejo. Hoje, vivem 15. As outras, ou deixaram a região, ou ocuparam o loteamento precário construído pelo governo do estado, em Saramém. O que aconteceu com esse povoado? Foi alagado.
Em 1995, a Cia Hidrelétrica do São Francisco(CHESF Eletrobrás)construiu uma barragem no município de Canindé do São Francisco, no rio Canindé, um dos afluentes do Velho Chico. Para a construção desta hidrelétrica (Xingó), muitas famílias tiveram que ser retiradas de suas casas. Parte da cidade foi inundada.
Três anos depois da construção de Xingó, um povoado localizado na foz do rio São Francisco começa a ser invadido pelas águas do mar:o Cabeço. Em pouco tempo, famílias e mais famílias vão deixando para trás sua história, sua cultura, seu espaço de terra porque construíram uma hidrelétrica há 200 km dali. O Cabeço nunca teve energia elétrica.
Uma comunidade tradicional de pescadores é obrigada a fugir das forças da água. A diminuição da vazão do São Francisco, ocasionada por seu represamento, causou um desequilíbrio na foz entre as forças do rio e do oceano. O mar invadiu. E é o farol construído pelos holandeses em 1870, cravado no meio do mar, a única testemunha da vila que está agora submersa aos seus pés.
Pescadores que sempre tiveram fartura sofrem agora com a pesca predatória do camarão, que acaba matando muitos peixes. Os moradores acusam também a carcinocultura pela morte dos caranguejos. Usam veneno para matar os caranguejos dos mangues, que se alimentam dos filhotes de camarão.
As redes que antes traziam peixes na foz do rio, “agora só pegam bagulho”, contou o Corcel, um dos pescadores da Vila. A diminuição da vazão levou a um maior acúmulo de “lixo” no fundo do rio, o tal do “bagulho”, que dificulta a pesca e estraga as redes feitas artesanalmente. Não tem mais peixe. “O jeito agora é a gente criar peixe em tanque”. O peixe, que vivia livre, vai viver confinado, comendo ração feita da soja, plantada no Mato Grosso! Mas eles ainda pescam.
O maior desejo desta vila hoje: construir um grande fogão a lenha. Com a diminuição da oferta de peixe, a alternativa achada pelas moradoras do local foi a produção de doces. “A gente gasta muito com botijão de gás”. Isso foi a Dinha que contou. Elas fazem cocadas (digamos que maravilhosas) para vender nas dunas de Alagoas. Na outra margem do rio, dezenas de escunas abarrotadas de turistas param na Área de Proteção Ambiental onde podem permanecer apenas uma hora “para não degradar o meio ambiente”. É neste local que Dinha e outras moradoras vão vender suas cocadas e artesanato. Artesanato que eles nunca produziram.
A Dinha teve que aprender a fazer chapéu de folha de coqueiro para poder comprar comida. O povoado não tem tradição em artesanato. A Dinha vende bolsas de palha também. Mas não é ela quem faz. Ela vai até o interior de Sergipe comprar bolsas para revender aos turistas em Alagoas. Uma vila de pescadores está se tornando uma vila de atravessadores.
Da vila, sobrou o farol. Do povo, restaram os mais velhos. Será que os jovens vão resistir a esta nova perspectiva? Onde foram parar as raízes deste povoado? Espero que nem tudo esteja no meio do mar.
Transcrevo aqui, duas falas do Tito, um dos moradores do cabeço, que o Chabes havia anotado:
É bom que as pessoas venham aqui e tirem fotos. Daqui uns anos, aqui onde estamos pisando, pode estar debaixo d´água também.
É bom que vocês venham aqui e conheçam a nossa realidade. Isso tem que ser divulgado, e chegar até alguém que possa fazer alguma coisa por nós.
Agora, o que será que vai acontecer pós projeto de transposição? Será que só os grandes bancos vão pagar a conta da transposição?

Natalie Rios
Setembro de 2005

(Texto publicado originalmente no Jornal Bocaberta de outubro de 2005 - Bocaberta é um periódico independente, financiada pelo Centro Acadêmico de Biologia - UNICAMP. Campinas, SP.)

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